Debate sobre bem-estar animal avança no Brasil
Com palestras em diversos eventos e um seminário exclusivo para falar sobre o assunto, o tema ganha corpo sendo debatido nos diversos níveis da cadeia produtiva.
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| Evento em Piracicaba (SP) reuniu a cadeia avícola para o debate |
Aos poucos, o que parecia realidade de um mundo distante chega ao setor de ovos brasileiro. O tema do bem-estar animal já está frequentando a maioria dos eventos no país e, sob os mais variados aspectos, tem sido debatido pela cadeia avícola. Isso é um bom sinal, afinal, o setor de ovos - assim como todos os outros - não pode ficar alheio às mudanças que, a cada tempo, mais rápido se processam na sociedade, quer queiramos ou não.
O mais interessante é que, de forma saudável e responsável, cada núcleo do setor tem procurado colocar o tema de forma a que sejam respeitadas as opiniões de todos, afinal, não é do dia para a noite que se muda uma indústria que demorou mais de 50 anos para se estruturar tal como é. E, nesse sentido, bem lembrou a respeitada especialista Masaio Mizuno, em debate durante a Conbrasul, realizada em junho, em Gramado, na Serra Gaúcha. Masaio considerou que, ao chegarmos ao patamar de alta produção avícola, corremos o risco, de repente, de voltar a fazer tudo como era no passado, referindo-se ao modo de produção de aves soltas, como era nos tempos pioneiros e todos os riscos sanitários que isso pode vir a representar.
O professor Benedito Lemos, do Aviário Santo Antônio, de Minas Gerais, também questionou a zootecnista Fernanda Vieira, da Humane Society International - HSI Brazil, que subiu ao palco da Conbrasul para defender os direitos de bem-estar dos animais de produção. Um dos mais respeitados nomes da avicultura de postura brasileira, Benedito quis saber: O que faremos com tudo isso que investimos até aqui na avicultura?
A verdade é que ninguém tem a resposta porque a sociedade se organizou de tal forma que, a julgar pelo "tamanho" da população, quem irá alimentar tanta gente de forma tão rápida e com volume suficiente se não houver produção em confinamento intensivo? A Europa viveu essa situação na primeira década dos anos 2000 e nos países da União Europeia adotou-se a produção de ovos com galinhas fora de gaiolas ou, ao menos, em gaiolas chamadas de enriquecidas, aquelas que permitem que a ave possa manifestar seus instintos naturais, como ciscar, por exemplo, e lixar as unhas.
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| O tema bem-estar animal esteve na programação de eventos diversos pelo país: em junho, na Conbrasul (RS), um painel foi montado todo sobre o tema, e teve a presença de Lizie Buss,do Ministério da Agricultura; Peter Vingerling, da Vencomatic; e Fernanda Vieira, da HSI - Brazil. |
Nesse sentido, as empresas no Brasil - em parte associadas a multinacionais que já têm know-how no assunto - já se mexem para apresentar seus equipamentos às tendências que, tanto podem se implantar rapidamente, como podem chegar com tranquilidade, a depender de como o setor e seus representantes se mexam e ajam a respeito.
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| No Congresso da APA 2017, em março, Evandro Moraes, do Institutode Zootecnia (SP), falou sobre bem-estar animal. No 11o. Encontro Técnico daHy-Line do Brasil, em São José do Rio Preto (SP), em abril, Márcio Rogério Santos,da Hy-Line, falou sobre o assunto. |
Muito eventos brasileiros estão dando a importância devida à questão, promovendo palestras de representantes da indústria de aviários, mostrando as possibilidades que o Brasil pode adotar, no caso do bem-estar animal, tanto se escolher o processo cage free (aves fora de gaiola e sem pastoreio) ou o free range (sem gaiola e com pastoreio).
Do outro lado da produção in natura estão os empresários da industrialização do ovo, que também já se movimentam para estar em sintonia com uma parcela do consumidor. A empresa Netto Alimentos, por exemplo, já busca ter uma parte de seus produtos processados com ovos oriundos de uma granja cage free. Assim, ele pode atender, por exemplo, clientes supermercadistas ou da indústria alimentícia que já se comprometeram com as organizações de defesa animal a só comprarem ovoprodutos feitos com ovos produzidos em granjas com aves fora de gaiola. Isso, sem falar na exportação, atendendo ao mercado internacional. Veja reportagem sobre o tema no link Netto Alimentos prospecta mercado para ovoprodutos cage free.
Há também produtores de ovos já investindo nesse "nicho de mercado", como se diz, pois, se há a tendência é porque tem consumidor. Há quem diga que no Brasil o consumidor não tem a consciência do desenvolvido povo europeu, que exigiu o fim das gaiolas. Pode ser, mas é bom que nos lembremos que o mundo mudou e que, mesmo os países ditos "em desenvolvimento" estão conectados à aldeia global. Se na Europa a pressão veio do consumidor, no Brasil pode ser de outra forma; essa, por exemplo, que estamos assistindo acontecer, das ONGs exigindo da indústria e do varejo um compromisso de só comprar ovos de galinhas criadas fora de gaiolas.
Pelo menos 20 dessas empresas de marcas famosas já se comprometeram, conforme estamos lendo todos os dias na imprensa brasileira. E de quem essas empresas vão comprar esses ovos na data em que estipularam nos acordos firmados? Se a tendência de mercado aperta o produtor, se a indústria se prepara, atendendo ao "aperto" das entidades que protegem os animais, o que está fazendo o avicultor? E o setor da pesquisa, da academia, que, por tese, deve estudar, pensar adiante? Pois esse setor está exatamente pensando adiante e já se organiza.
Em maio, dois elos dessa cadeia "pensante" se uniram e montaram um simpósio específico sobre o bem-estar animal. Professores e pesquisadores da USP e da Embrapa realizaram o 1º Simpósio Brasileiro de Bem-Estar na Produção de Ovos e o 1º Egg Production Precision Day. O evento, que aconteceu em maio, na USP em Piracicaba, no interior de São Paulo, contou com a presença de uma plateia recheada de profissionais da indústria, estudiosos e alguns avicultores.
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| Iran José de Oliveira da Silva, Helenice Mazzuco e Paulo Giovanni Abreu, organizadores do simpósio sobre bem-estar animal, em Piracicaba (SP) |
Durante os encontros – realizados no Anfiteatro do Departamento de Ciências Florestais da ESALQ/USP, em Piracicaba (SP) - estiveram reunidos profissionais de diversas áreas da postura comercial brasileira, quando foram debatidos o bem-estar animal, a ambiência e a zootecnia de precisão. Iran José Oliveira da Silva, da Esalq – Nupea; Helenice Mazzuco e Paulo Giovanni Abreu, ambos da Embrapa Suínos e Aves, foram os nomes a assinar a realização dessa primeira edição de um evento que já está rendendo frutos para o debate sobre bem-estar e evolução da avicultura brasileira.
O objetivo do simpósio foi discutir os avanços técnicos e as práticas de bem-estar animal aplicadas na avicultura de postura do país, unindo no discurso a visão do governo, das empresas e dos produtores. Também foi objetivo dos organizadores “proporcionar aos técnicos do setor uma atualização do tema na cadeia produtiva e discutir os temas relevantes na produção de ovos no país sob o enfoque do bem-estar animal.”
Ao final do encontro, os participantes escreveram um documento ao qual chamaram de Carta de Piracicaba, em que apresentam as conclusões a que chegaram e que podem ajudar a influenciar o futuro da avicultura de postura brasileira. A Carta está na íntegra em nosso site, no link Carta de Piracacicaba.
Estão aí postas as cartas. É preciso pensar, analisar e trocar ideias. Já estamos fazendo isso no Brasil, o que, em tempos não muito distantes, parecia impensável, tão distante aparentava estar esse tema. O mundo girou e chegou a nossa vez. Por mais que pareça um desafio difícil, é um desafio, e ele só vai deixar de sê-lo, se o enfrentarmos.
Está aberto o debate.



