São Bento do Una mostra a força da avicultura nordestina
O maior produtor de ovos do Nordeste convive diariamente com o desafio da falta de água e, mesmo assim, exibe índices de produtividade que alavancam a economia regional.
Em agosto deste ano, A Hora do Ovo esteve no Nordeste, região que responde por 20% da produção nacional de ovos, segundo dados da Avipe. Entre os dias 2 e 5, visitamos a 1ª Feira da Avicultura de São Bento do Una, o município pernambucano que produz o maior número de ovos do Nordeste. A feira promoveu o debate sobre as questões mais prementes da avicultura regional, realizando em paralelo um simpósio para discutir o tema Os desafios dos criadores de aves e as soluções para melhorar a produção.
Tudo isso aconteceu dentro da já consagrada festa popular de São Bento do Una, a Corrida da Galinha, que há 19 anos é realizada pela Prefeitura do município e chama a atenção do Brasil para a expressiva produção de ovos local. São 5 milhões de unidades produzidas por dia, o que torna o município a "capital do ovo do Nordeste". São Bento tem a cultura da avicultura de postura e pulsa de acordo com ela. Está ali a característica mais forte de um núcleo de postura comercial: a capacidade de resistir às adversidades.
São Bento do Una fica no agreste de Pernambuco, região que tem condições de temperatura boas para a avicultura, com ar fresco em grande parte do ano e ventilação natural privilegiada. Tudo seria muito favorável não fosse o município estar incrustrado numa parcela de terra especialmente pobre de recursos hídricos. Não chove no local há cinco anos. O belo céu azul que resplandece por lá quase sempre tem nuvens que, no máximo, dão numa fina garoa.
Em agosto, quando lá estivemos, o ar era fresco, o vento muito bom. A paisagem rural era um misto de felicidade - com o ceú azul e nuvens parecendo bordadas à mão – e desolação, impressão causada pelo solo arenoso ressequido pela falta de água. Para dar de beber às milhões de poedeiras alojadas em São Bento é necessário comprar água, que chega diariamente em caminhões-pipa para abastecer os barreiros ou cisternas das propriedades. São Bento já foi uma importante bacia leiteira de Pernambuco, mas hoje, o que se mantém de forma valente, gerando emprego e oportunidades na cidade, é a avicultura de postura.
A VOCAÇÃO PARA A POSTURA
O município conta com 50 granjas, segundo dados da Avipe, a Associação Avícola de Pernambuco. A maioria das propriedades são consideradas de pequeno porte, mas há também a força das granjas médias e grandes, que potencializam a atividade na região. A maior delas é a Granja Almeida, de José de Almeida, um pernambucano sério e compenetrado, que recebeu A Hora do Ovo para uma entrevista em seu escritório, no centro da cidade. Ele nos contou que seu plantel, que beira hoje os 3 milhões de aves em produção, começou em sua juventude, com 50 pintainhas. Com incansável capacidade de trabalho, unida a um extraordinário tino comercial e nata capacidade de administração, José de Almeida se tornou o maior empresário avícola de toda a região.
Foi dele a ideia de iniciar o mutirão de doação de água no município, que tem sido fundamental para muita gente. Ele sabe bem quanto é custoso dar de beber aos animais de criação. “Aqui, se chovesse, não tinha lugar melhor no mundo”, ressalta o empresário, que hoje comanda outros negócios além da produção de ovos. Tem granja de matrizes pesadas, granjas de frango de corte, fábrica de ração para venda em varejo e fazenda de gado. Conta ainda, em outra região, com uma propriedade para captação de água que ele utiliza para seu plantel, o rebanho de bovinos e, com certeza, abastece o CPO, o Centro de Processamento de Ovos da marca Almeida, que higieniza, classifica e embala os ovos de todas as granjas da empresa.
A reportagem da A Hora do Ovo foi convidada a conhecer o CPO da Granja Almeida e podemos dizer que ela é a mais ampla e uma das mais organizadas salas de ovos que já visitamos. Rigorosamente tudo é feito de acordo com o que preconizam os mais recentes manuais de boas práticas, seguindo as mais rigorosas exigências da legislação. E a impressão que se tem ao entrar no CPO da Granja Almeida é de que ele foi construído já para crescer. Impressiona pelas dimensões, limpeza, funcionalidade e organização. Otávio Melo Júnior, representante comercial da Planalto Postura na Região de São Bento do Una, nos acompanhou na reportagem, junto com Rogério Belzer, gerente comercial da Planalto. Otávio é também pernambucano e não esconde o orgulho da sua terra e da força produtiva de seu povo. É dele a indicação de que é preciso crescer com sabedoria. "O senhor José de Almeida teve a sensibilidade de saber crescer aos poucos”, disse Otávio, que tem José de Almeida como cliente desde 1998.
Hoje, o empresário emprega cerca de 1.700 pessoas, tem quatro granjas em São Bento do Una, além de unidades em Belo Jardim – cidade vizinha – e uma granja que adquiriu já automatizada em União dos Palmares, em Alagoas. Para chegar a essa estrutura, José de Almeida enfrentou muito trabalho duro e pesado desde as primeiras 50 pintainhas abrigadas num cantinho, cobertas com palha de coqueiro. “Avicultura é um atividade arriscada e difícil, tem que ter pés no chão”, aconselha o empresário, um autodidata nato. Aprendeu a entender as necessidades das aves na observação do dia-a-dia, e ainda hoje é capaz de indicar - antes mesmo de um profissional da área - quando um plantel está com algum sintoma de enfermidade. “É preciso observar sempre. Desde o começo eu aprendi a ficar olhando bem o comportamento das aves. Isso é muito importante na granja”, ensina com humildade o grande empresário, que é um exemplo brasileiro do sucesso que se pode alcançar nessa renhida atividade que é a postura comercial.
É PRECISO PERSISTÊNCIA
José Hamilton Ferro é outro nome de proa em São Bento do Una. Ele é um médio produtor, hoje com 450 mil aves. Foi trabalhador em granja e, com a força de seu trabalho, conseguiu, em 1977, aos 34 anos, comprar uma propriedade com 1500 poedeiras. Ele conta que seu crescimento nesses quase 40 anos como produtor se deu com muito esforço e com a sabedoria de se manter nos altos e baixos do mercado de ovos. “É uma atividade muito trabalhosa”, aponta, lembrando que para os produtores de São Bento a dose de adversidade é mais alta devido à falta d´água. “Esta é a pior seca que já passamos desde que eu nasci”, afirma, categoricamente.
Fazendo eco às palavras de José de Almeida, ele diz: “Nosso clima é bom, temperatura melhor que a nossa não tem. Só falta a chuva”. Ele lembra que nem sempre foi assim. Antes da atual crise hídrica, o tempo máximo que a região ficava sem chuvas eram dois meses. Ele conta que precisa comprar água de fora para abastecer a granja de cria e recria e os galpões de aves em produção. “É muito difícil, mas é a principal atividade de nossa cidade e não podemos parar”, diz, paciencioso. “Vamos passando de fase em fase e atravessando. O tempo faz com que a gente aprenda a ir sentindo os melhores caminhos a tomar na atividade.”
Alguém que sabe bem o que é atravessar dificuldades, também, é o produtor Fernando Vilela, da Granja Vilela. Dono de sua própria granja há 16 anos, Vilela trabalha na atividade desde 1978, quando tinha 20 anos, concluiu o curso de agropecuária e foi contratado como gerente geral de uma pequena granja. Trabalhou em várias propriedades, inclusive em granjas de matrizes, em compra e venda de frangos vivos, e conseguiu investir em seu próprio plantel de poedeiras. Começou a Granja Vilela com 2 mil aves e hoje tem 100 mil em produção, num negócio sólido em que é apoiado pelos filhos.
Vindo de uma família grande, o menino caçula Fernando lembra-se da dificuldade com que fez o curso de técnico em agropecuária. “Acordava de madrugada para caminhar 6 km até a escola. Voltava às 13h30 caminhando mais 6 km, sem merenda. Era muito difícil, mas consegui”, orgulha-se. Os irmãos mais velhos, já empregados em São Paulo, ajudavam enviando roupas para o estudante, que prosseguiu firme no curso até conclui-lo, para orgulho do pai Telécio, que muitas vezes dividiu com os filhos a comida do prato, em tempos muito ruins.
O jovem Vilela queria mais estudo, mas era necessário trabalhar para ajudar os pais, já idosos, então permaneceu na labuta em São Bento do Una, diplomando-se no dia-a-dia do aprendizado sem fim na granja. E ele só espera que volte a chover com normalidade na região para que possa voltar a investir: “Se Deus nos ajudar, e chover, a tendência é crescer. É como diz o ditado: o nordestino é antes de tudo um forte, porque para produzir com tanta dificuldade é preciso ser persistente como somos". Estimado na cidade por sua história de superação e trabalho, Fernando Vilela é também um belo exemplo da vocação que o município passou a desenvolver na avicultura a partir dos anos 1970, mesmo com as dificuldades da falta de água.
PIONEIRA EM AUTOMAÇÃO
Das 50 granjas que a Avipe estima existirem em São Bento do Una, uma se destaca pelo pioneirismo em automação. A Granja São Luís é a primeira de lá com aviários automatizados, da cria e recria até a postura. A Granja São Luís é de Nelson Galvão Filho, natural de Garanhuns (PE), que hoje mora na capital Recife. Quem nos conta a história é seu filho mais velho, Nelson Galvão Neto, que administra a granja com entusiasmo.
Com especial atenção, recebeu a reportagem da A Hora do Ovo, fazendo questão de nos acompanhar do bem montado CPO à fazenda onde estão instalados os aviários. Todos eles erguidos em galpões altos, amplos, muito arejados e com modernos equipamentos Artabas. Ele está bem satisfeito com o resultado do investimento, e acredita que a automação seja o caminho para a produção de ovos com eficiência e competitividade. É essa busca também que o levou a optar por investir em uma nova máquina classificadora Yamasa, com maior capacidade e agilidade de higienização e seleção de ovos.
A Granja São Luís foi fundada em 1986 e em 2016 completou 30 anos. Desde 2006, o empresário passou a direção administrativa ao filho Nelson Neto, que conta com o grande apoio da mãe Lúcia de Fátima Galvão nos recursos humanos, onde faz um trabalho muito bem-sucedido de treinamento e motivação de equipe. E pela organização da empresa se vê que tudo dá muito certo. Seu irmão mais novo, o engenheiro de produção Gabriel Galvão dá suporte à tecnologia e manutenção do CPO.
Quando Nelson Neto assumiu a direção da empresa, a São Luís produzia 60 mil ovos por dia; hoje, a produção está no patamar de 350 mil ovos/dia. “Fizemos o crescimento dentro de um planejamento estratégico, com segurança”, conta o administrador, já com novos planos de crescer. Mais investimentos, entretanto, só virão com a estabilidade do mercado, quando então imagina que poderá dobrar seu plantel, hoje em cerca de 440 mil aves.
Com frota própria para escoar seu produto, os ovos São Luís seguem para os mercados da Paraíba, Pernambuco, Piauí e Alagoas. No slogan da granja, um pouco do afeto que a Família Galvão procura transmitir no dia-a-dia da propriedade: Onde existe amor, não falta qualidade.
EM BUSCA DE UNIÃO E INCENTIVO
Se depender dos esforços dos produtores locais e da Avipe, a Associação Avícola de Pernambuco, a questão da água deverá ser equacionada com investimentos estaduais. Em entrevista à A Hora do Ovo, Edival Veras, presidente da entidade (foto ao lado), contou que há uma mobilização junto ao governo estadual para a construção de uma adutora de água que abasteça não somente a cidade de São Bento do Una mas também as granjas locais. “Foi firmado um compromisso com os diretores da Compesa - a Companhia Pernambucana de Saneamento - para que até o final de 2017 seja providenciada essa adutora.
O Sul do Agreste de Pernambuco é rico em água e ela viria de lá. Esse é um investimento fundamental para essa região, porque sem água não haverá produção e nem geração de empregos. E São Bento do Una tem uma cultura de avicultura muito interessante, que precisa ser preservada”, afirma Edival. “A avicultura é uma atividade geradora de dignidade, de emprego, de renda, e isso é fundamental. A própria valorização do ovo como produto tem chamado a atenção dos políticos para problemas de São Bento, como a questão da água”, afirma. Ele aponta que o setor e a prefeitura do município têm procurado, de forma planejada, atrair investimento e iniciativas público-privadas para a região e a questão da água precisa ser resolvida para não se tornar um limitante ao crescimento regional.
Avicultor, presidente da Avipe desde 2014, Edival Veras procura mostrar uma visão mais dinâmica da atividade. Levou a entidade a abrir uma filial em São Bento do Una em 2015, conseguindo com isso mais associados. “Nós acreditamos que São Bento do Una possa ser um polo de eventos da avicultura”, aposta Edival, que tem planos de incluir - junto com os promotores da feira em São Bento do Una -, uma segunda edição do evento em 2017, em data diferente da Corrida da Galinha, este um evento popular tradicional que tem sua programação voltada ao entretenimento.
A ideia é que a cidade passe a ter anualmente uma festa do ovo, a exemplo de Bastos, em São Paulo. Seria a "festa do ovo nordestina", com sotaque pernambucano; e uma feira ainda maior e mais elaborada que a primeira, realizada em agosto de 2016. A ideia dos promotores - que teve à frente o empresário Eduardo Valença, também um dos promotores da Corrida da Galinha -, em parceria com a Avipe, é que haja também eventos técnicos paralelos, para promover o intercâmbio de informações entre produtores, técnicos e profissionais das muitas empresas que atuam no forte mercado nordestino. A data do novo evento ainda está para ser agendada.
A julgar pelo apoio que testemunhamos já no primeiro ensaio da futura Festa do Ovo de São Bento do Una, o projeto tem muitas chances de sucesso. A 1ª Feira Avícola da cidade, realizada entre os dias 3 e 6 de agosto, no recinto de exposições local, foi prestigiada pelo governador de Pernambuco, Paulo Câmara, e contou com estandes de empresas nacionais importantes, como a Planalto Postura, a Hy-Line do Brasil, a Polinutri, a Vaccinar, a DSM, a Granja Fujikura, a Ianic (empresa nordestina de equipamentos avícolas) e muitos estandes de representantes regionais, como EPE, Nutrivil, Usivet, Zoocamp, Utipec e Recivet, representando as empresas Artabas, Hendrix Genetics, Dekalb, Sanphar, Isoeste, Sanovo, Kilbra, MSD, além de estabelecimentos avícolas como a Granja Almeida, Granja Favorito, Ferraz Avícola, entre outros, que não montaram estande mas fizeram questão de dar seu apoio, como a Granja Vilela.
Por quatro dias as jornalistas Elenita Monteiro e Teresa Godoy, da A Hora do Ovo, puderam conhecer um pouco da força produtiva que move São Bento do Una. Estiveram na cidade para cobrir a 1ª Feira Avícola com o importante apoio da Planalto Postura, que nos levou ao universo da maior produtora de ovos do Nordeste, e a quem agradecemos por ter nos possibilitado fazer nossa primeira cobertura na Região Nordeste. Esperamos que seja a primeira de muitas, porque há muito a ser mostrado da avicultura de postura do Nordeste deste nosso imenso Brasil.