Ricardo Santin, da ABPA, destaca o papel estratégico da comunicação institucional na crise da influenza aviária no Brasil
Na Conferência FACTA 2025, realizada em Campinas (SP), Santin mostrou a atuação da entidade em diversas frentes e o poder da comunicação coordenada.
Teresa Godoy – Editora do site A Hora do Ovo
A 41ª Conferência FACTA-WPSA-BR, realizada em Campinas (SP), nos dias 2 e 3 de setembro, foi palco de um debate essencial sobre os desafios e a resiliência do setor avícola brasileiro. Em sua palestra na abertura do primeiro painel do evento, Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), destacou o papel fundamental da entidade na proteção da cadeia produtiva e na manutenção do status sanitário do país diante do recente surto de influenza aviária de alta patogenicidade (IAAP) em aves comerciais no Rio Grande do Sul.
Com a presença de lideranças do setor, como Roberto Kaeffer, presidente da APINCO, Santin foi recebido com reconhecimento por seu trabalho incansável. "Nos últimos 30 dias, ele foi às Filipinas, Japão e, na semana passada, ao México. Esse homem viaja!", destacou Kaeffer, ressaltando o esforço da ABPA em conjunto com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para reabrir mercados importadores e assegurar a exportação da carne de frango brasileiro.
A ESTRATÉGIA DA COMUNICAÇÃO CORRETA EM TEMPOS DE CRISE
O principal ponto da apresentação de Santin foi a gestão da crise da IAAP. Ele enfatizou que, ao contrário do que poderia ter acontecido no passado, o Brasil estava preparado e conseguiu superar o desafio de forma inédita.
Santin enfatizou que a resposta bem-sucedida não foi improvisada. Foi o resultado de um trabalho contínuo, iniciado em 2013 com a criação do Grupo Especial de Prevenção à Influenza Aviária (GEPIA), um esforço conjunto da ABPA com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Esse planejamento antecipado foi crucial para a velocidade da reação. "Nós nos preparamos para aquilo que a gente não queria que acontecesse. Aconteceu? Mas estávamos preparados", afirmou o executivo.
A resposta coordenada foi imediata. A granja afetada, no município de Montenegro (RS), foi despovoada e desinfetada em poucos dias, e um relatório detalhado foi enviado à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), que liberou o Brasil em apenas dez dias, um prazo excepcionalmente curto para um processo que normalmente levaria meses.
A atuação integrada da ABPA com o governo foi decisiva, seguindo os protocolos do Plano Nacional de Prevenção e Vigilância da Influenza Aviária. Um dos pilares da gestão da crise foi a estratégia de comunicação. A ABPA estabeleceu um protocolo claro: a divulgação de informações seria centralizada no MAPA, e, em seguida, na própria ABPA, evitando a dispersão de dados e rumores. “Só fala uma pessoa pela ABPA, e só fala depois que o Ministério falar”, revelou Santin. Essa coordenação garantiu um discurso único e transparente, essencial para manter a credibilidade junto a parceiros internacionais e à opinião pública.
A imprensa brasileira também foi elogiada por Santin. Ele destacou a atuação dos grandes veículos de comunicação e da imprensa especializada, que veicularam a informação correta de que o vírus não era transmitido pelo consumo de carne de aves e ovos. "O William Bonner, no Jornal Nacional, anunciou: 'influenza aviária, mas isso não se transmite'. E foi assim em todas as grandes redes e mídia do setor agropecuário", relembrou.
A estratégia de comunicação também se estendeu aos mercados internacionais. Santin detalhou os esforços da ABPA em missões a países importadores, como Filipinas, Japão e México, para reforçar a confiança nos protocolos sanitários brasileiros e negociar a manutenção das exportações. O resultado foi expressivo: de 151 mercados abertos, apenas 28 impuseram restrições temporárias, e o Brasil conseguiu manter a sua relevância global.
O PROTECIONISMO DISFARÇADO: A CRÍTICA DE SANTIN AOS PAÍSES QUE MANTÊM EMBARGOS
Em sua palestra, Ricardo Santin não poupou críticas a nações que, mesmo após a rápida e eficaz resposta do Brasil à influenza aviária, mantiveram restrições à importação da carne de frango brasileira. Segundo o executivo da ABPA, a decisão de alguns países em manter os embargos é um ato de protecionismo disfarçado.
Ele questionou a lógica por trás de tais restrições, já que a ciência e os protocolos sanitários confirmam que o consumo de carne de frango e ovos é seguro. Santin apresentou um argumento contundente, destacando que "um minuto de cocção a 70 graus inativa o vírus".
PERDA FINANCEIRA E O IMPACTO SOCIAL DOS EMBARGOS
Ao apontar as perdas financeiras — o Brasil, por exemplo, perdeu mais de 100 milhões de dólares —, Santin fez uma observação crítica sobre quem mais sofre com os embargos. Ele citou o caso da África do Sul, onde o preço do alimento subiu dramaticamente, penalizando as famílias mais pobres.
"Sabe quem pagou essa conta? Os mais vulneráveis do mundo", declarou, expondo as consequências sociais do protecionismo. Ele defendeu que a decisão de fechar mercados é injustificável, especialmente quando se baseia em um "princípio de precaução" que, para ele, se tornou "excessivo" e não mais alinhado com a realidade científica.
UM APELO POR UMA NOVA MENTALIDADE
Ainda durante a palestra, Santin revelou que enviou mais de 3.500 correspondências a diversos países, argumentando contra a manutenção dos embargos e defendendo uma nova abordagem global para a doença. Em suas palavras, é preciso que as nações mudem a "cabeça" e entendam que a doença, que não é transmitida pelo consumo, exige uma cooperação global baseada em ciência e não em barreiras comerciais injustificadas.
Dois dias depois que Santin falou aos mais de 600 participantes da Conferência FACTA, a União Europeia declarava o Brasil livre da influenza aviária, abrindo novamente seus mercados para o frango brasileiro (veja a matéria: União Europeia reconhece Brasil como livre de influenza aviária e autoriza retomada das exportações de frango). Atualmente, somente Canadá, China, Malásia, Paquistão e Timor-Leste ainda mantêm embargo às importações de carnes de aves brasileiras.
A BIOSSEGURIDADE COMO PILAR INEGOCIÁVEL
Para Ricardo Santin, a batalha contra a IAAP só é vencedora com o investimento permanente em biosseguridade. Ele ressaltou que, mesmo com o avanço da doença em diversas partes do mundo, a blindagem do Brasil foi a prova de que o trabalho de base funciona. "O que funciona é biosseguridade. Eu rezo, bato na madeira, mas o que funciona é trabalho e segurança nos mínimos detalhes", afirmou.
A palestra de Ricardo Santin na Conferência FACTA 2025 reforçou a posição do Brasil como líder global na avicultura, não apenas por sua capacidade de produção, mas por sua robustez sanitária e a eficiência de suas entidades de classe em gerir crises. Sua mensagem foi clara: o sucesso do Brasil frente à influenza aviária é resultado de um trabalho meticuloso e preventivo.
A combinação de uma robusta biosseguridade, uma comunicação estratégica bem-organizada e a coordenação entre setor privado e governo provou ser uma fórmula para proteger a avicultura brasileira, assegurando tanto a sua sanidade quanto a sua liderança no mercado global.
(Foto: divulgação Conferência FACTA 2025)
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