Fernando Vargas, da MSD, defende uma visão integrada da saúde das aves, com genética, manejo, nutrição, ambiente e imunização

Fernando Vargas, da MSD, defende uma visão integrada da saúde das aves, com genética, manejo, nutrição, ambiente e imunização

O diretor técnico Global de Avicultura destaca a importância do manejo racional das doenças respiratórias em postura comercial.

Ovonews

novembro 27, 2025

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Uma visão integrada da saúde das aves deve unir genética, manejo, nutrição, ambiente e imunização. Foi assim que Fernando Vargas, diretor técnico Global de Avicultura da MSD Saúde Animal, destacou a importância de um olhar integral sobre a ave quando se fala em manejo racional das doenças respiratórias.

Durante o II Seminário Hy-Line White para a América Latina, realizado entre 5 e 8 de agosto em Foz do Iguaçu (PR), o médico veterinário fez uma das palestras mais técnicas e instigantes do evento. Com mais de três décadas de experiência e passagens por diversos países, Vargas defendeu uma visão integrada da saúde das aves, que olhe para a genética, manejo, nutrição, ambiente e imunização em um mesmo raciocínio sanitário.

Vargas começou lembrando que o sistema respiratório das aves é altamente especializado, mas também vulnerável. “As aves evoluíram para fugir de predadores. Têm ossos ocos, sacos aéreos e um pulmão rígido. Tudo isso faz delas atletas natas, mas também mais suscetíveis a infecções”, explicou. Segundo ele, a seleção genética intensiva e o aumento da densidade nos aviários agravaram essa fragilidade natural. “Hoje temos aves que não voam e vivem em alta densidade. Isso cria um ambiente de desafio permanente”, pontuou.

O especialista ressaltou ainda o papel do sistema mucociliar, primeira barreira de defesa contra agentes respiratórios. “Se essa linha é rompida, abrimos a porta para vírus e bactérias como E. coli, bronquite infecciosa ou laringotraqueíte*”, alertou

PRINCIPAIS AMEAÇAS RESPIRATÓRIAS, IMPACTO ECONÔMICO E RACIONALIDADE NO CONTROLE

Entre os agentes de maior preocupação, Fernando Vargas destacou bronquite infecciosa, doença de Newcastle e laringotraqueíte infecciosa, apontando suas implicações econômicas e sanitárias. 

Sobre a bronquite, lembrou que se trata de um coronavírus altamente mutável: “Ele muda o tempo todo. O que controlava o vírus ontem pode não funcionar amanhã. É preciso vigilância constante". Já a doença de Newcastle, além de seu impacto produtivo, tem reflexos comerciais: “É uma enfermidade de notificação obrigatória. Em alguns países, sua ocorrência chega a travar exportações". Em relação à laringotraqueíte, o veterinário foi enfático: “Ela causa quadros clínicos dramáticos, com aves expectorando sangue e perdas produtivas que não se recuperam. É um problema que persiste e requer atenção permanente.”

Com base em cálculos de campo, Vargas estimou que 2% de mortalidade por doenças respiratórias em um plantel de um milhão de aves pode gerar prejuízo de US$ 600 mil. A comparação serviu para defender o investimento em prevenção. “Colocar duas vacinas a mais na recria pode parecer custo, mas é investimento. O retorno chega a 150 para 1”, afirmou. Ele criticou a chamada “economia burra”, o corte de gastos em programas vacinais ou de biossegurança sem considerar o risco real: “Economizar um dólar e perder 150 é o tipo de conta que não cabe mais na avicultura moderna.”

MONITORAMENTO E INTELIGÊNCIA DE DADOS

Entre as medidas práticas, Vargas reforçou a importância do monitoramento contínuo e da manutenção de um banco de soros para análise futura. “Coletar amostras em idades-chave e guardá-las por até dois anos pode salvar um lote inteiro. É um investimento pequeno com retorno enorme”, disse.

Ele também incentivou a cultura de dados nas granjas: “A avicultura tem memória curta. Esquecemos rápido o que aconteceu no último ciclo. É preciso registrar, interpretar e transformar dados em informação para tomada de decisão.”

A MSD vem desenvolvendo ferramentas de vigilância genômica global que permitem rastrear mutações virais e sua circulação entre países. Vargas apresentou um dendrograma — mapa genético de amostras coletadas em diferentes regiões — que ajuda a identificar novas cepas e antecipar riscos. “Esse tipo de análise permite entender de onde veio o vírus e como ele se comporta no campo”, explicou

VACINAÇÃO E PROGRAMAS PERSONALIZADOS

Ao abordar a imunização, Fernando Vargas destacou o conceito de “manejo racional”: compreender o funcionamento das vacinas e adaptá-las à realidade local. “Não adianta ter um programa vacinal quilométrico, como vemos em alguns países do Oriente Médio. O que importa é vacinar bem, na hora certa e com propósito claro.”

Defendeu também o conceito de prototipo, desenvolvido pela pesquisadora Jane Cook nos anos 1990, segundo o qual a combinação de vacinas com sorotipos diferentes pode proteger contra múltiplas variantes do vírus da bronquite.

Encerrando sua palestra, Vargas resumiu a mensagem em uma palavra: monitoramento. “As doenças respiratórias continuam e continuarão sendo um desafio. Só com vigilância, dados, rastreabilidade e um olhar integrado sobre saúde, nutrição e manejo é que poderemos usufruir plenamente do potencial genético das nossas galinhas”, concluiu, sob aplausos do público que lotava o auditório em Foz do Iguaçu.

(A Hora do Ovo em cobertura no II Seminário Hy-Line White para América Latina. Foto: divulgação do evento)

tag: Fernando Vargas , MSD Saúde Animal , Semiario Hy-Line White para America Latina ,

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