Primeiro encontro sobre sexagem in ovo no Brasil abre caminho para debater e ampliar o tema junto à cadeia avícola

Primeiro encontro sobre sexagem in ovo no Brasil abre caminho para debater e ampliar o tema junto à cadeia avícola

Em evento histórico reunindo produtores, empresas de tecnologia, incubatórios e governo, o setor avícola debateu a viabilidade, custos, mercado e gargalos jurídicos da eliminação do abate de pintinhos machos.

Ovonews

setembro 13, 2026

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A pergunta parece simples: se existe tecnologia capaz de identificar o sexo do embrião antes do nascimento e evitar que pintinhos machos venham ao mundo para depois serem descartados, por que o Brasil ainda não adotou a sexagem in ovo em escala?

A resposta é bem mais complexa: uma coisa é saber que a tecnologia existe; outra, muito diferente, é fazer com que ela funcione dentro da realidade da cadeia produtiva de ovo do país, com milhares de produtores, incubatórios de diferentes portes, custos pressionados, consumidores de diferentes faixas de renda, equipamentos importados, legislação em discussão e um mercado que ainda precisa entender exatamente o que significa comprar um ovo produzido a partir de pintainhas provenientes de sexagem in ovo.

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Liane Soares, promotora do evento: abrindo o diálogo


Foi justamente para colocar essas questões sobre a mesa que foi realizado em agosto, em São Paulo (SP), o Encontro Nacional sobre Sexagem In Ovo, realizado por Lica – Liane Consultoria e Ação com apoio da Iniciativa MIRA. O evento é o primeiro grande fórum brasileiro dedicado a debater tecnologias de sexagem in ovo, seus impactos econômicos, regulatórios, éticos e operacionais e os caminhos para sua implementação no país.

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Elaine Sans, diretora da Iniciativa MIRA (foto), abriu sua palestra destacando o papel da organização no apoio técnico, estratégico e comercial a produtores e empresas da avicultura de postura e corte, além da conexão entre produtores, incubatórios e varejo. “Nosso objetivo é fornecer embasamento científico, materiais técnicos gratuitos e capacitações para que a cadeia brasileira navegue em águas tranquilas e estruturadas antes que as exigências cheguem de forma coercitiva. Queremos acelerar o bem-estar animal com sustentabilidade econômica”, demonstrou Elaine.

Sobre a sexagem in ovo, tema central do encontro, ela resumiu o propósito da iniciativa: “Queremos ajudar a promover essa inovação, fomentar a adoção das tecnologias, disseminar conhecimento técnico e conectar quem quer implementar ou saber mais. É hora de construir esse assunto no Brasil”. Até por isso, o subtítulo do evento é Desafios e oportunidades para o Brasil.

O encontro reuniu mais de 60 participantes, mais de 20 produtores, duas empresas internacionais de tecnologia, representantes de incubatórios, especialistas, representantes do poder público, instituições de financiamento e organizações da sociedade civil. A Hora do Ovo, como mídia parceira, acompanhou o evento e saiu de lá com a percepção de que a discussão brasileira começou, de fato, e que esse pode ser o sinal de que há um caminho.

O DILEMA DA AVICULTURA DE POSTURA

A sexagem in ovo nasce de uma questão conhecida da avicultura de postura: os machos das linhagens especializadas para produção de ovos não apresentam a mesma aptidão econômica das fêmeas para a produção de carne e, claro, não produzem ovos. Tradicionalmente, machos e fêmeas seguem juntos no processo de incubação até o nascimento, quando os pintinhos são sexados e os machos são descartados.

Estimativas globais apontam que mais de 7 bilhões de pintinhos machos de linhagens de postura comercial são descartados com um dia de vida anualmente no mundo. Sob o ponto de vista do bem-estar animal, do compliance corporativo e da eficiência de recursos, a prática passou a sofrer severas pressões éticas, sociais e políticas, principalmente na Europa.

A tecnologia propõe uma solução para o fim do descarte dos machos: identificar o sexo durante a incubação, retirar os embriões machos do processo antes da eclosão e permitir que os ovos com embriões fêmeas continuem sua trajetória para originar as futuras poedeiras. Dependendo da tecnologia, a identificação pode ocorrer em diferentes momentos da incubação. Gabriela Menin, representante da Innovate Animal Ag para a América Latina – parceira da Mira na organização do evento - explicou que as soluções disponíveis trabalham, aproximadamente, entre o sétimo e o 13º dia, dependendo da tecnologia.

O MUNDO JÁ ESTÁ FAZENDO A TRANSIÇÃO

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Gabriela Menin (foto) apresentou o panorama global de adoção da sexagem in ovo, mostrando que a tecnologia deixou a fase experimental para se tornar uma realidade de mercado em larga escala em diversos países. A transição teve início na Europa, impulsionada por proibições legislativas do abate de pintinhos machos em países como Alemanha, França e Áustria. O movimento também avançou em mercados sem imposição legal direta, movido por varejistas, consumidores e compromissos de ESG.

Na União Europeia, cerca de 40% das poedeiras comercializadas em 2025 já foram sexadas in ovo, segundo dados apresentados no encontro, com previsão de superar 50% em 2026. Nos Estados Unidos, a adoção está em expansão entre grandes produtores e varejistas. Na Austrália, a implementação prevista para 2026 deverá alcançar grande parte do mercado nacional.

O cenário internacional mostra, portanto, que a tecnologia está deixando de ser uma promessa para se transformar em uma ferramenta concreta de mudança na produção de ovos.

NO BRASIL JÁ EXISTEM PROJETOS DE LEI A CAMINHO

Se o segmento de ovos está começando a discutir o assunto, o Legislativo brasileiro já colocou o tema na pauta. Atualmente, tramitam no Congresso Nacional dois Projetos de Lei que visam proibir o abate de pintinhos machos.

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O advogado Yuri Fernandes Lima (foto), especialista em Direito Animal, chamou atenção para que os prazos previstos na legislação sejam compatíveis com as tecnologias disponíveis. Um dos projetos estabelece limite de seis dias para o descarte do ovo após o início da incubação. O problema é que as tecnologias atualmente disponíveis trabalham em momentos diferentes, algumas a partir aproximadamente do sétimo dia. Uma legislação com prazo incompatível poderia criar uma obrigação que o setor ainda não teria condições técnicas de cumprir.

Outro ponto destacado foi a necessidade de um período de adaptação. Incubatórios precisam adquirir equipamentos, adaptar instalações, treinar equipes, reorganizar processos e testar a tecnologia. Uma mudança sem transição poderia provocar uma corrida desorganizada para atender à exigência da lei. “Se aprovarmos uma legislação açodada corremos o risco de afugentar o investimento produtivo”, alertou o advogado. “O setor avícola não é contra a evolução do bem-estar animal, mas precisa de segurança jurídica, prazos razoáveis de adaptação e diálogo regulatório com o MAPA para criar uma transição realista”, considerou Yuri.

O QUE DIZEM OS PRODUTORES

No Brasil, por enquanto, o passo pioneiro comercial na sexagem in ovo foi dado em 2025 pela Raiar Orgânicos, em parceria com a empresa alemã AAT e o incubatório da Hy-Line. A Raiar, que iniciou suas atividades em 2020 com aves 100% livres de gaiola e ovos caipiras orgânicos, demonstrou no encontro, o lado menos glamouroso do pioneirismo.

LEANDRO-ALMEIDA
“Nós enxergamos que foi importante até aqui puxar a linha do novelo e começar a desatar o nó, mas estamos um pouco sozinhos nisso”, ponderou Leandro Almeida (foto), diretor de operações da Raiar e um dos produtores convidados a participar da roda de conversa durante o encontro. Para ele, um evento como esse é muito importante para começar a construir esse caminho conjunto e levar isso adiante.


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Como a Raiar, a Korin Agropecuária também apoia a sexagem in ovo. A empresa trabalha, desde sua criação, em 1994, com valores baseados em profundo conceitos agroecológicos e naturais. Produz ovos de aves livres e tem 100% das aves em sistema caipira.
Para Leikka Iwamura (foto), médica-veterinária e gerente de produção animal da empresa, a sexagem in ovo está alinhada à filosofia da companhia. “Para nós esse tema é de extrema importância. Com certeza faz parte dos objetivos da Korin adotar também essa prática para a produção dos ovos”, indicou. A posição de Leikka mostrou que, para algumas empresas – como a Korin e a Raiar - essa tecnologia representa também coerência com uma proposta de produto baseada cem por cento em bem-estar animal, desde sua origem.

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“Temos todo o interesse em colaborar com a cadeia, incentivar de alguma forma para que seja possível promover essa mudança com a sexagem in ovo de forma economicamente viável”, disse Daniel Mohallen, médico-veterinário e diretor da Planalto Ovos. Sua empresa também opera com aves 100% livres de gaiolas com aproximadamente 500 mil aves entre os sistemas cage-free e caipira.

Durante o debate, o produtor de Uberlândia quis saber como outros países estruturaram incentivos para acelerar a transição e observou que, se o custo da tecnologia chegar integralmente ao consumidor, existe o risco de encarecer o ovo, uma das principais fontes de proteína animal acessíveis à população brasileira.

Os produtores presentes concordaram que o Brasil não pode esperar a sexagem se tornar uma exigência internacional para começar a agir. Se compradores internacionais passarem a considerar o bem-estar animal um critério relevante de abastecimento, a adoção da sexagem poderá deixar de ser apenas uma questão de posicionamento de marca para se transformar em requisito de mercado. Hoje, uma empresa pode adotar porque acredita na causa; amanhã, pode precisar adotar porque o mercado exige.

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André Carreira (foto), zootecnista e gerente executivo de avicultura da Mantiqueira Brasil, levou ao debate a perspectiva de uma das maiores empresas de ovos do país. A Mantiqueira possui cerca de 18 milhões de aves no Brasil, com aproximadamente 22% já em sistemas livres de gaiola.

Para a empresa, a discussão está inserida em uma trajetória de transformação iniciada há alguns anos. “De 2020 para cá, a Mantiqueira vem com um foco muito grande no bem-estar animal”, salientou André. Ele argumentou que a adesão a novas tecnologias precisa estar relacionada também a ganhos de eficiência e qualidade. “Mostrar isso de forma mais clara pode ampliar nossa visão para além do custo”, considerou.

O CONSUMIDOR E AS TECNOLOGIAS

O mercado consumidor também pode ser um motor de mudanças. Dados de pesquisa apresentados pela Innovate Animal Ag durante o encontro indicaram que, bem-informado, o consumidor pode ser um elo importante nesse sistema. Uma pesquisa conduzida no Brasil demonstrou que, depois de conhecer o funcionamento da indústria e a existência da sexagem in ovo, 80% dos consumidores abordados expressaram interesse em consumir ovos produzidos tendo essa tecnologia como suporte. Mais de 75% afirmaram estar dispostos a pagar um valor adicional.

Se a sexagem gera um atributo de bem-estar animal capaz de ser valorizado pelo consumidor, outra questão é como transformar esse atributo em valor de mercado. São muitas questões a serem consideradas, portanto.

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Alex Tramontin (foto), da Orbem, empresa alemã responsável por uma das tecnologias apresentadas no encontro, mostrou que a solução precisa ser entendida como uma construção coletiva. Segundo ele, a transição precisa envolver tecnologia, adaptações nos incubatórios e educação do consumidor. “Quando nos juntamos para direcionar a sexagem in ovo é quando os resultados são melhores”, indicou o executivo.

A tecnologia apresentada por Alex utiliza ressonância magnética e inteligência artificial, sem perfuração da casca. A média informada pela Orbem é inferior a 1% de machos no nascimento. Com seis módulos, a capacidade apresentada chega a 24 mil ovos por hora.

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Katharina Hessler, cofundadora e CEO da startup alemã Omegga, apresentou uma tecnologia baseada em luz, espectroscopia e inteligência artificial, com identificação do sexo antes do sétimo dia. Segundo ela, os próprios incubatórios apontaram algumas condições necessárias para que uma solução tenha mercado: ser acessível, não invasiva, precoce e capaz de reduzir os riscos do investimento.

A startup propõe um sistema modular que permite começar com uma capacidade menor e ampliar posteriormente. “Você pode começar pequeno, ver como o mercado reage e depois escalar junto conosco”, indicou Katharina.

AÇÕES DO GOVERNO E FOMENTO

MAPA-ETC
Guilherme Campos Júnior, Izabella de Alcântara Martins e Raquel Nakazato Pinotti


O encontro também mostrou que a transição brasileira não dependerá apenas do esforço privado. Regulação, políticas públicas e mecanismos de financiamento podem ser decisivos para tornar a tecnologia acessível à cadeia. Em painel dedicado ao tema, representantes do MAPA, FINEP e Secretaria de Agricultura de São Paulo mostraram o cenário atual sobre regulação, inovação e apoio financeiro.

Do MAPA participaram Guilherme Campos Júnior, secretário de Política Agrícola, que citou linhas de financiamento voltadas à modernização e inovação no setor, e Valéria Stacchini Ferreira Homem, chefe da Divisão de Bem-Estar Animal do MAPA, que participou on line e informou o trabalho da pasta na elaboração de material normativo técnico específico para o setor avícola, ainda em validação interna. A proposta deverá avançar posteriormente para discussão com o setor produtivo.

Na área de fomento, Izabella de Alcântara Martins, da FINEP, apresentou possibilidades de financiamento para projetos de inovação, e Raquel Nakazato Pinotti, da Secretaria de Agricultura de São Paulo, colocou o órgão à disposição para intermediar demandas da avicultura de postura e apontou as Câmaras Setoriais como espaço para alinhamento de políticas de incentivo.

O PARALELO COM O CAGE-FREE E O DIÁLOGO ABERTO

PRODUTORES
Painel dos produtores: debate importante sobre sexagem in ovo


Durante o painel de produtores surgiu a comparação da sexagem in ovo com o sistema cage-free no Brasil. Houve um tempo em que os sistemas livres de gaiola pareciam complexos, caros ou distantes da realidade para a cadeia avícola. Hoje, são segmentos em fase de consolidação e crescimento no país.

A experiência internacional mostra que a tecnologia avançou primeiro em mercados nos quais legislação, consumidores, varejistas, produtores e empresas de tecnologia começaram a caminhar na mesma direção. O primeiro Encontro Nacional sobre Sexagem In Ovo teve exatamente esse objetivo. Cumpriu a função de colocar diferentes agentes na mesma sala, tirou a sexagem in ovo do campo da hipótese e colocou o assunto no centro da mesa da avicultura brasileira.

“Esse encontro representa um marco para o Brasil ao reunir, pela primeira vez, governo, setor produtivo, empresas de tecnologia, financiadores e sociedade civil para discutir os caminhos da implementação da sexagem in ovo. O diálogo demonstrou que há interesse e disposição para avançar de forma colaborativa, fortalecendo a inovação, a competitividade da avicultura e o bem-estar animal”, afirma Liane Soares, diretora da LICA Consultoria e Ação, idealizadora e responsável pelo Encontro Nacional sobre Sexagem In Ovo no Brasil.

A construção desse caminho passa pelo diálogo entre esses elos da cadeia. A lição central do encontro em São Paulo parece ser que o setor avícola nacional não precisa temer a inovação, mas precisa preparar-se com antecedência. A sexagem in ovo não é uma exigência do futuro; é uma oportunidade concreta de negócios e de respeito à vida animal que já está presente. 

Saiba mais sobre o Encontro Nacional sobre Sexagem in Ovo no site encontrosexageminovo.com.br

(A Hora do Ovo, em cobertura no Encontro Nacional de Sexagem in Ovo no Brasil. Fotos: Lucy Alexandre/Lica Consultoria e Ação. Foto do destaque e painel dos produtores: Elenita Monteiro)

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