Arapongas celebrou sua história e discutiu o futuro da avicultura de postura
Capital Estadual do Ovo do Paraná, município reuniu produtores, especialistas, pesquisadores e autoridades em um encontro que foi muito além de uma programação técnica.
No último dia 14 de agosto, Arapongas recebeu um dos encontros mais importantes da avicultura de postura do Paraná. O 5º Seminário da APAVI e o 1º Simpósio da Avicultura de Postura reuniram produtores, empresas, pesquisadores, estudantes e especialistas em um dia inteiro de debates sobre os desafios que já fazem parte da rotina das granjas e sobre aqueles que ainda estão por vir.
Realizado poucos meses depois de Arapongas ser reconhecida oficialmente como Capital Estadual do Ovo do Paraná, o evento ganhou um significado especial. A cidade, que lidera a produção paranaense de ovos desde 1978 e produz mais de 1,1 milhão de ovos por dia, recebeu representantes de diferentes áreas para discutir aquilo que acontece dentro das granjas, mas também tudo o que influencia a atividade fora delas.
Ao longo do dia, ficou claro que produzir ovos se tornou uma atividade cada vez mais complexa. Não se falou apenas sobre aves e produção. A programação passou por tributação, legislação, biosseguridade, modelos de criação, automação, nutrição, pesquisa científica e mercado internacional.
Logo na abertura, o diretor do Departamento de Saúde Animal do Ministério da Agricultura e Pecuária, Marcelo de Andrade Mota, participou por meio de uma mensagem em vídeo. Por compromissos de agenda, ele não conseguiu estar presente em Arapongas, mas fez questão de agradecer o convite, parabenizar os produtores e os organizadores e lamentar não poder participar pessoalmente daquele momento.
A mensagem ganhou importância justamente pela posição que Marcelo ocupa e pela relevância que a sanidade animal tem para o futuro da avicultura brasileira. Mesmo à distância, sua participação abriu um evento que, durante todo o dia, discutiria alguns dos principais desafios de uma cadeia que precisa estar permanentemente preparada.
Na sequência, a abertura oficial contou com autoridades e representantes do setor. O prefeito Rafael Cita destacou a importância da avicultura para Arapongas e para a economia do município. Em uma cidade que produz mais de um milhão de ovos diariamente, o crescimento da atividade também exige investimentos que muitas vezes não aparecem quando se olha apenas para os números da produção.
A questão da infraestrutura, especialmente das estradas rurais, esteve presente em sua fala. É um ponto importante, porque toda essa produção precisa circular. Os ovos precisam sair das propriedades, chegar aos centros de classificação, seguir para os mercados e alcançar consumidores em diferentes regiões. Por trás de uma granja eficiente existe uma estrutura que também precisa acompanhar o crescimento da atividade.
Depois da abertura, a programação começou a percorrer diferentes áreas que hoje fazem parte da gestão de uma granja.
Diogo Silva, da Assesccont, abriu as palestras técnicas falando sobre a Reforma Tributária. É um tema que ainda parece distante para muitos produtores, mas que pode influenciar diretamente os custos e a organização das empresas nos próximos anos. O grande mérito da palestra foi trazer esse assunto para uma linguagem próxima da realidade de quem está no setor e mostrar que esperar as mudanças chegarem para depois tentar entendê-las pode ser uma decisão arriscada.
Ao lado dele, Thiago de Lima França, da Teixeira & Lima Advocacia, abordou os riscos jurídicos e trabalhistas que também fazem parte da realidade das propriedades rurais. Muitas vezes, esse tipo de assunto só ganha atenção quando o problema já aconteceu. A palestra mostrou a importância de olhar para a gestão jurídica como uma forma de prevenção e de proteção do patrimônio construído pelo produtor.
As duas apresentações se complementaram bem. De um lado, mudanças tributárias que podem alterar a forma como as empresas se organizam. Do outro, a necessidade de reduzir riscos jurídicos que podem comprometer financeiramente uma atividade construída ao longo de muitos anos.
Na sequência, Rafael Pallone Favretto, da ADAPAR, trouxe para o centro do Seminário um dos temas mais sensíveis da avicultura atual: a biosseguridade.
Sua apresentação foi importante porque tratou a biosseguridade não apenas como uma lista de exigências ou procedimentos que precisam ser cumpridos. Em uma região com forte presença da avicultura, qualquer falha pode ultrapassar os limites de uma propriedade e atingir uma cadeia inteira. Por isso, prevenir deixou de ser uma escolha e passou a ser parte da própria sustentabilidade da produção.
Esse assunto continuou presente na palestra de Alceu Kazuo Hirata, da Vetanco, que abordou o controle de doenças a partir de produtos, procedimentos e pessoas.
Foi uma das apresentações que me fizeram refletir durante o evento. Podemos investir nos melhores produtos e estabelecer protocolos completos, mas nada funciona se as pessoas responsáveis por executar esses processos não estiverem preparadas e comprometidas.
No final, a biosseguridade acontece na rotina. Está na forma como alguém entra em uma propriedade, segue um procedimento, cuida das aves ou recebe uma visita. É por isso que falar sobre pessoas, nesse contexto, talvez seja tão importante quanto falar sobre equipamentos ou produtos.
Elton Oliveira, da Artabas, trouxe outra discussão bastante ligada ao futuro das propriedades ao falar sobre os modelos de criação para postura comercial. Em um momento em que a avicultura convive com novas exigências, dificuldades relacionadas à mão de obra e transformações tecnológicas, escolher como produzir se tornou uma decisão ainda mais estratégica.
Sua palestra mostrou que não existe um único modelo que sirva para todas as empresas. Cada sistema possui características, investimentos, vantagens e desafios próprios. O mais importante é entender a realidade de cada negócio e tomar decisões que façam sentido para o presente e para o futuro daquela granja.
Célio Batista da Silva, da VetQuest, levou a discussão para a nutrição funcional na avicultura de postura. Sua apresentação mostrou como a nutrição passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico dentro das propriedades.
Hoje, a discussão não se resume à formulação de uma dieta. Saúde intestinal, desempenho, bem-estar e eficiência econômica estão diretamente conectados. A nutrição passou a ser uma ferramenta importante para ajudar o produtor a buscar melhores resultados sem perder de vista a saúde das aves.
Depois de uma manhã intensa, a programação da tarde trouxe uma dimensão diferente para o encontro.
O 1º Simpósio da Avicultura de Postura colocou a pesquisa científica no centro do evento e reforçou a importância de aproximar universidades e pesquisadores da realidade enfrentada diariamente pelos produtores.
A apresentação da médica-veterinária Gabrielli Maria de Souza foi, para mim, um dos pontos altos daquele dia. Seu trabalho trouxe uma discussão sobre a influência das condições térmicas na conservação e na qualidade dos ovos, um tema que dialoga diretamente com uma preocupação presente na cadeia: como preservar a qualidade do produto depois que ele deixa a granja.
Mas, além do conteúdo apresentado, havia algo simbólico naquele momento. Ver uma jovem profissional apresentando sua pesquisa diante de produtores e especialistas mostrava a importância de criar espaços onde a ciência e a experiência prática possam conversar.
O produtor conhece problemas que aparecem todos os dias dentro da granja. A pesquisa pode ajudar a encontrar respostas, testar soluções e transformar essas experiências em conhecimento. Quando os dois lados conseguem se aproximar, toda a cadeia ganha.
Na sequência, Eduardo Iwamoto levou o público para uma discussão que ultrapassou as fronteiras brasileiras. Advogado, mestre em Direito Administrativo e doutor em Direito de Energia pela PUC/PR, além de diretor jurídico da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Japão do Paraná, Eduardo atua atualmente na área de negócios internacionais entre os dois países.
Ao falar sobre as oportunidades existentes no mercado japonês, trouxe uma perspectiva interessante para uma cadeia que muitas vezes está concentrada na rotina da produção e nem sempre consegue olhar para novas possibilidades fora do país. A conversa foi, acima de tudo, um convite para pensar em qualidade, diferenciação e nas oportunidades que podem surgir a partir de relações comerciais internacionais.
Mas, se Eduardo nos levou para outros mercados, Tadaaqui Hirose nos trouxe de volta à história.
Sua palestra foi, sem dúvida, um dos momentos mais especiais do evento.
Hirose construiu uma trajetória marcante na magistratura brasileira. Foi juiz federal, tornando-se o primeiro nikkei a conquistar esse título, e posteriormente seguiu sua carreira como desembargador federal. Mas sua presença em Arapongas tinha um significado que ultrapassava sua trajetória profissional.
Filho de produtor de ovos e com uma ligação profunda com a história da cidade, Tadaaqui falou sobre integridade, perseverança e serviço público a partir de uma trajetória que dialogava diretamente com muitas famílias presentes naquele auditório.
Depois de um dia falando sobre tecnologia, impostos, sanidade e produção, sua palestra trouxe de volta um elemento que, às vezes, os números não conseguem mostrar: as pessoas que estão por trás de uma cadeia produtiva.
Enquanto ele falava, era difícil não pensar nas famílias que começaram pequenas, enfrentaram períodos difíceis e ajudaram a transformar a avicultura em uma das principais atividades econômicas de Arapongas. Nenhuma cidade se torna referência em uma atividade apenas porque produz milhões de unidades por dia. Antes disso, existem gerações de pessoas que trabalharam, investiram, erraram, recomeçaram e permaneceram.
Talvez tenha sido esse o motivo de sua fala ter encontrado uma conexão tão forte com o público. Tadaaqui não estava falando apenas sobre uma carreira construída no serviço público. De alguma forma, sua história também ajudava a contar a história de tantas famílias que construíram suas vidas em torno da produção de ovos.
O encerramento do Seminário trouxe novamente para o centro da discussão a biosseguridade. O painel final reuniu representantes da ADAPAR, da APAVI e de empresas do setor, permitindo que diferentes pontos de vista fossem colocados na mesma conversa.
Depois de um dia inteiro ouvindo especialistas de áreas distintas, aquele momento ajudou a conectar os temas apresentados. A biosseguridade não depende apenas de uma empresa, de um produtor ou de uma instituição. Ela exige responsabilidade de todos que participam da cadeia.
Ao final do evento, fiquei pensando em quantos assuntos diferentes conseguimos reunir em um único dia. Falamos sobre legislação, produção, biosseguridade, nutrição, automação, mercado internacional e pesquisa científica. Mas também falamos, de alguma forma, sobre pessoas.
A fala de Tadaaqui Hirose nos levou de volta à história das famílias que ajudaram a construir a avicultura em Arapongas. A apresentação de Gabrielli mostrou a importância de preparar uma nova geração de profissionais e pesquisadores para os desafios que estão pela frente. E as demais palestras deixaram claro que o produtor de hoje precisa administrar uma atividade cada vez mais complexa, em que produzir bem continua sendo fundamental, mas já não é a única preocupação.
Também não poderia encerrar essa experiência sem registrar meu agradecimento à diretoria da APAVI. Ao presidente da APAVI, Tohoru Furukawa (foto no destaque), pela confiança e pela liderança na condução da entidade; ao tesoureiro Edson Kakihata, pelo apoio e pela participação em cada etapa da realização; e ao diretor técnico Geraldo Hayashi, pela contribuição e pelo compromisso com o fortalecimento da avicultura de postura.
Um evento como esse não acontece apenas no dia em que as portas se abrem e os palestrantes sobem ao palco. Existe um trabalho anterior, muitas conversas, decisões e pessoas que acreditam que reunir o setor para compartilhar conhecimento vale a pena.
O evento foi resultado desse esforço conjunto. E ter a oportunidade de participar dessa construção, ao lado de pessoas comprometidas com o desenvolvimento da cadeia, torna a experiência ainda mais significativa para mim.
Talvez essa tenha sido a principal mensagem do 5º Seminário da APAVI e do 1º Simpósio da Avicultura de Postura. O futuro da cadeia dependerá da capacidade de reunir experiência, conhecimento técnico, pesquisa e planejamento, sem perder de vista a história que trouxe a avicultura até aqui.
Arapongas conquistou oficialmente o título de Capital Estadual do Ovo do Paraná, mas o evento mostrou que esse reconhecimento vai além de uma homenagem. Ele representa a trajetória de produtores e famílias que ajudaram a transformar a atividade em uma das principais forças econômicas do município e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de preparar essa cadeia para os próximos desafios.
No dia 14 de agosto, produtores, pesquisadores, empresas e profissionais se reuniram para discutir justamente isso: como preservar aquilo que foi construído ao longo de décadas e, ao mesmo tempo, encontrar novos caminhos para que a avicultura continue crescendo.
Foi um encontro marcado por conteúdo, mas também por histórias. E talvez seja essa a lembrança mais forte que fica daquele dia em Arapongas: a sensação de que, mesmo diante de tantos desafios, existe uma cadeia disposta a conversar, aprender e construir o próximo capítulo da sua própria história.
Nos vemos em 2027!
(Foto do destaque: Tiago Henrique)
Tiago Henrique dos Santos Autor
Gestor executivo e assessor de comunicação e marketing do Sindicato Rural de Bastos (SP)
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